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Golden Power Itália: comprador brasileiro 2026 — guia - Panato Law Firm — Verona

A reforma de janeiro de 2026 redefiniu o calendário e os riscos de toda aquisição em setor estratégico italiano — leia antes de assinar o SPA

Em 2025, o governo italiano exerceu o chamado golden power — o poder do Estado de condicionar ou vetar aquisições em setores estratégicos — em pelo menos 18 operações envolvendo compradores não pertencentes à União Europeia, número registrado nos relatórios anuais da Presidência do Conselho dos Ministros italiana (Presidenza del Consiglio dei Ministri). Desse total, mais de um terço resultou em condicionantes / restrições impostas, não em aprovações sem restrições / aprovações incondicionais. Se o seu grupo brasileiro está avaliando a compra de uma empresa italiana — de uma fintech a uma distribuidora de energia, de uma fabricante de semicondutores a uma rede de clínicas —, esse número é o ponto de partida, não um detalhe de rodapé.

Uma empresa brasileira precisa de aprovação do governo italiano para comprar um negócio italiano?

Sim, em todos os setores considerados estratégicos pelo Estado italiano. E a lista é mais longa do que a maioria dos assessores fora da Itália imagina.

O regime foi criado pelo Decreto-Lei italiano n.º 21, de 15 de março de 2012 (D.L. 21/2012), e foi sendo progressivamente ampliado. A Lei n.º 4, de 15 de janeiro de 2026 (Legge 4/2026), em vigor desde 21 de janeiro de 2026, é a sua versão mais abrangente. Como o Brasil não é Estado-membro da UE, qualquer grupo brasileiro — independentemente de ter subsidiária europeia ou de a operação ser estruturada via holding holandesa ou luxemburguesa — é tratado como adquirente de país terceiro e está sujeito à notificação obrigatória (comunicazione obbligatoria) à Presidência do Conselho dos Ministros italiana sempre que:

— adquira participação igual ou superior a 10% do capital de uma empresa italiana que opere em setor estratégico; e
— o valor da operação seja igual ou superior a EUR 1 milhão.

Os setores estratégicos abrangem defesa, segurança nacional, energia, transportes, comunicações, tecnologia da informação, infraestrutura financeira, setor bancário e segurador, saúde, alimentação e água, inteligência artificial e computação quântica. A Lei 4/2026 acrescentou a "segurança econômica e financeira" como interesse nacional protegido, o que expandiu / alargou o alcance sobre operações antes consideradas abaixo dos limites de notificação.

Ao contrário do CADE: como o Golden Power difere da análise antitruste que o decisor brasileiro conhece

Aqui está a diferença que surpreende toda equipe brasileira na primeira operação italiana. No Brasil, a análise do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) foca em efeitos concorrenciais: poder de mercado, concentração horizontal, fechamento de mercado. O golden power italiano é algo completamente diferente. Ele não analisa concorrência. Analisa soberania e segurança. O governo pode condicionar ou vetar uma operação mesmo que ela não crie qualquer dominância de mercado, simplesmente porque o adquirente é estrangeiro e o ativo é considerado sensível. Ao contrário da maioria dos regimes de controle de concentrações — inclusive o do CADE —, a notificação de golden power não exige que se demonstre poder econômico relevante. O simples fato de o adquirente ser não-europeu e o ativo estar em setor listado é suficiente para acionar a obrigação. Isso significa que uma PME italiana com EUR 20 milhões de faturamento pode exigir notificação, quando o mesmo ativo seria invisível para o controle antitruste.

O que a reforma de janeiro de 2026 mudou de verdade no setor financeiro

O ponto mais crítico da Lei 4/2026, e o que menos aparece nos FAQs de escritórios italianos concorrentes, está no artigo 4-bis introduzido pela reforma: para operações que envolvam aquisição de participação em instituições de crédito, seguradoras e infra-estruturas de mercado financeiro, o prazo de 45 dias da Presidência do Conselho (prazo de 45 dias) só começa a correr após a conclusão das autorizações prudenciais perante o Banco Central Europeu (BCE) ou a autoridade prudencial nacional competente.

Na prática: se o seu grupo está comprando uma participação qualificada em um banco italiano pequeno ou médio, o BCE pode levar de três a seis meses para emitir a autorização prudencial. Só então o golden power começa. O closing que o CFO projetou para 90 dias pode facilmente passar para oito ou dez meses. Isso não é teoria — é sequência legal obrigatória. Um SPA que não antecipe essa encadeamento de prazos expõe o comprador a duas situações indesejáveis: pagar multa por closing prematuro, ou renegociar condições com o vendedor já com o negócio parcialmente precificado.

Qual é a multa por fechar uma aquisição italiana sem notificação de Golden Power?

A sanção prevista pelo D.L. 21/2012, mantida e reforçada pela Lei 4/2026, é de até o dobro do valor da operação (sanzione fino al doppio del valore dell'operazione). Não há piso fixo: o teto é duas vezes o preço pago. Além da penalidade financeira, a Presidência do Conselho pode determinar o desfazimento compulsório da operação (ripristino della situazione precedente). Em transações no setor de defesa ou infraestrutura crítica, o Código Penal italiano prevê ainda responsabilidade individual dos administradores. Em nossos arquivos, o erro mais frequente não é a recusa em notificar — é a notificação incompleta: o comprador identifica apenas a entidade adquirente direta e não mapeia a cadeia de controle até o beneficiário final brasileiro (titolare effettivo). A Presidência do Conselho exige, como anexo obrigatório, o organograma completo de propriedade, incluindo todos os sócios com participação superior a 5% em cada nível. Quando esse mapa chega incompleto, o prazo de 45 dias não começa — ele é suspenso até a regularização.

Quanto tempo leva a análise de Golden Power na Itália em 2026?

O prazo ordinário é de 45 dias corridos a partir do recebimento da notificação completa pela Presidência do Conselho. Dentro desse prazo, o governo pode: (a) nada fazer — o silêncio equivale a aprovação tácita; (b) autorizar sem condições; (c) autorizar com condições (imposizione di prescrizioni), por exemplo, exigindo que certos ativos ou contratos permaneçam sob gestão italiana; ou (d) vetar a operação. O prazo pode ser prorrogado em 15 dias em caso de necessidade de informações adicionais. Para operações em defesa e segurança nacional, o prazo é de 45 dias, mas corre em paralelo com a análise do Ministério da Defesa. Para operações financeiras sob a nova regra do artigo 4-bis, o prazo de 45 dias é suspenso durante toda a fase prudencial europeia — o que torna o planejamento de timeline dependente de um processo conduzido em Frankfurt, não em Roma.

O Golden Power se aplica à compra de uma vinícola ou hotel italiano?

Provavelmente não — mas com uma ressalva relevante. Vinícolas, hotéis, imóveis comerciais e empresas do setor turístico em geral não estão nos setores estratégicos listados pelo D.L. 21/2012. Uma compra direta de uma vinícola familiar não aciona o regime. A ressalva: se essa vinícola ou hotel for parte de um conglomerado com atividades em energia, tecnologia ou telecomunicações — mesmo que secundárias —, a operação global pode ser puxada para análise. O segundo ponto de atenção é a aquisição de ativos (asset deal), não só de participações societárias (share deal): o regime de golden power se aplica igualmente a operações em que o comprador adquire diretamente um ativo estratégico — uma licença de espectro, uma rede de fibra, um porto — sem comprar a empresa que o detém. Essa equivalência entre asset deal e share deal é o ponto que mais surpreende assessores jurídicos brasileiros acostumados com a análise do CADE, que foca primariamente em participações societárias.

O que fazer antes de assinar: a sequência concreta

Nemo iudex in causa sua — "ninguém deve ser juiz em sua própria causa" — é o princípio que explica por que a triagem de um investimento estrangeiro não pode ser feita pelo próprio comprador em isolamento. A análise de enquadramento precisa ser externa, documentada e anterior à assinatura do SPA.

A sequência é esta. Primeiro, mapeie o setor e verifique o enquadramento nos Regulamentos da Presidência do Conselho, em particular o D.P.C.M. de 18 de dezembro de 2020 (D.P.C.M. 18 dicembre 2020), que lista os ativos e atividades sujeitos à notificação obrigatória. Segundo, monte o organograma completo da cadeia de propriedade do adquirente, identificando todos os beneficiários finais até o nível pessoa física no Brasil — esse documento é exigência formal e sua ausência suspende o prazo. Terceiro, verifique se a operação ultrapassa os limiares de notificação da Autoridade Garante della Concorrenza e del Mercato (AGCM), o equivalente italiano do CADE, para controle de concentrações: faturamento combinado superior a EUR 517 milhões na Itália ou EUR 30 milhões de cada parte envolvida aciona análise paralela. Quarto, se o alvo for uma instituição financeira, inicie o protocolo junto ao BCE ou à Banca d'Italia antes de qualquer notificação de golden power, pois a sequência legal agora é obrigatória. Quinto, inclua no SPA uma condição precedente (condition precedent) expressa cobrindo a aprovação de golden power e, separadamente, a autorização prudencial, com prazos de long-stop calibrados para a nova realidade de oito a doze meses em operações financeiras.

O Tribunal de Cassação italiano, Primeira Turma Cível, no acórdão n.º 5 de 3 de janeiro de 2025 (Cass. civ., Sez. I, sentenza 3 gennaio 2025, n. 5), reafirmou que sanções administrativas impostas sem notificação prévia em regime de golden power têm efeito imediato e independem de processo judicial para execução. A análise doutrinária de Francesco Galgano em Diritto Commerciale há décadas sustenta que o poder de intervenção estatal sobre ativos privados, quando exercido por razão de interesse público, se sobrepõe à autonomia negocial das partes — premissa que a Lei 4/2026 consolidou com a adição da "segurança econômica" como categoria autônoma de interesse nacional.

O próximo passo concreto é este: antes de assinar qualquer carta de intenções (letter of intent) vinculante ou qualquer protocolo de exclusividade com o vendedor italiano, solicite um parecer de enquadramento (legal opinion de qualificação) que confirme se a operação aciona ou não o regime, qual o prazo realista de análise e se a cadeia de propriedade do seu grupo está pronta para o anexo obrigatório. Esse documento deve estar em mãos antes, não depois, da abertura do data room.

Perguntas frequentes

Uma holding brasileira com subsidiária na Holanda precisa notificar o Golden Power?
Sim. O regime analisa a origem do controle final, não a jurisdição da entidade adquirente direta. Se o beneficiário final da cadeia é brasileiro — ou se o controle decisório reside fora da UE —, a notificação é obrigatória independentemente de qualquer estrutura intermediária europeia.

A notificação de Golden Power tem custo para o comprador?
A notificação em si não tem taxa governamental. O custo é o tempo dos assessores jurídicos para montar o dossiê — que pode ser substancial, dado o nível de detalhe exigido sobre a cadeia de propriedade — e o custo de oportunidade de um processo que, para operações financeiras, pode ultrapassar seis meses antes mesmo do prazo de 45 dias começar a correr.

O que acontece se o governo italiano impuser condições à aquisição?
As condições (prescrizioni) são obrigatórias e vinculam o comprador após o closing. Podem incluir manutenção de sede operacional na Itália, proibição de transferência de tecnologia a terceiros, obrigação de manter contratos com fornecedores italianos, ou restrições sobre quem pode integrar o conselho de administração. O descumprimento posterior dessas condições equivale a uma nova infração e pode resultar em sanção autônoma.

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Autor: Editorial Team — Panato Law Firm


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